corpo
É um prédio desmoronando com você lá dentro.
mv.
Talvez eu seja o único cara andando a pé do centro a nova cidade
Recolhendo restos de coisas do século passado e transformando em livros
Chorando, ouvindo aquela canção do Neil Young da boca de um mendigo.
Urso Moraes
Meus pais eram pobres, no que aprendi cedo que, em tempos de vacas magras, é preciso improvisar. Quando falta o pão, tem-se mais fome que tristeza. Não há nada maior que a fome, nada, nem o medo, nem o amor.
Te amo porque quero te comer, com dentes e unhas. Mas você, que não é comida caseira, me custa caro, e na sua falta cozinho homens sem sustância; um arrotinho adocicado no final, para garantir, ao menos, o sono tranquilo.
[Bruna Mitrano]
meu desacato é deixar você nua
completamente crua
gozar em altas notas
sem dó.
sua calcinha está no chão
eu samba-canção
corpos embaralhados numa cama esporrada
na cara
na boca
nos seios branquelos e sardentos.
é sexo noir, pina colada
risos cínicos de amor vagabundo
eu gosto
você gosta
nós gozamos.
-Roberto B.-
Pegar o frango é a parte fácil. Tem que chegar por trás, de mansinho — se você canta de galo, não tem almoço de domingo. É preciso suspendê-lo pela base das asas e mantê-las unidas. Evite movimentar o braço. O risco de giz já deve estar traçado no chão. Encoste o bico da sua presa no início da linha reta. Espere dois minutos e terá um frango hipnotizado [não peça a ele para imitar gente, isso só funciona na tevê]. Agarre-o pelo pescoço, com as duas mãos; você pode escolher qualquer espaço entre ossinhos e torcer. É importante ouvir o plect. A morte deve ser rápida, caso contrário, o animal fica tenso e a carne endurece. Talvez ele estrebuche. Segure-o pelas patas e escorra o sangue numa bacia. Depois, deixe-o descansar por no máximo cinco minutos numa panela de água fervendo, para que as penas soltem com facilidade. Feito isso, depene-o e retire os miúdos, enfiando, com cuidado, uma das mãos pela cloaca. Com um facão bem amolado, corte as partes duras (patas, pescoço). Por fim, tempere, regue o peito com o sangue despejado na bacia, leve ao forno e, após o tempo necessário, coma-o merecidamente.

(Ou a mãe do Bambi)
Assisti “Bambi” muito pequeno. Foi o primeiro filme que vi no cinema. É emblemático para mim lembrar da minhã irmã tapando meu rosto com força para a cena que também nunca fora mostrada para o público. O tempo passou… e toda vez que eviscero uma vítima nova, se fechar bem os olhos, consigo reviver aquela tarde.
…a vida tem essas reminiscências.
— por MVSS
gargalhou outra vez sem motivo. tivesse língua, lamberia o bico da 38 spl carregada, pra deixá-la ainda mais aguda, a noite. Ela. morreria já a essa hora? – danço.
[Bruna Mitrano]
I.
Chorava, chorava como nunca havia chorado (ou, se nunca, muito pouco). Eram lágrimas pesadas, quentes, o nariz ardendo, vermelho. E chorava, chorava com a força dos pulmões, com os pulsos cerrados, chorava sem conseguir falar, soluçando, até que disseram “está muito nervosa” e ela colocou os óculos sobre a mesa, tentou secar o rosto com as mãos e conseguiu abrir a boca para prometer “deixa eu me recompor”. E completou dizendo: que era insuportável.
II.
Tristeza tem um sabor meio brumoso, é como um doce suave que vai e vem. Mas aquele choro era de sangue, era choro de raiva e ódio, e foi surpreendida ali, não pelo que poderia ser julgado como a ofensa-causa daquele choro, mas por perceber que perecia, sob a camada frágil, exterior, perecia a revolta calada, a raiva contida, o murro não dado, o golpe sempre evitado: ela era humana, também.
(Bruna Maria)

- E o que aconteceu com ele? Onde ele está?
- Eu não sei - respondi, tomando o meu latte macchiato, levemente despreocupada com o assunto. - Na minha vida é assim. As pessoas somem. Tudo parece estar muito bem e em algum momento as pessoas somem. Simplesmente desaparecem. Compreende?
(Acho que não compreendia. Voltou a ler seu livro enquanto eu dava mais um gole na xícara. E quando levantei os olhos para lhe perguntar o por que de sua curiosidade, ela já não estava mais lá.)
June